A doutrina do Arrebatamento, embora seja central para muitos cristãos evangélicos, é vista de maneiras distintas dentro do espectro evangélico, especialmente quando se adota a lente da Teologia Reformada (ou teologia do Pacto).

É importante notar que o termo “Arrebatamento” vem do latim raptare, que traduz o grego harpazo (1 Tessalonicenses 4:17), significando “tirar com força”, “arrebatar”.

Perspectiva Evangélica Tradicional (Dispensacionalista)

Dentro do evangelicalismo, a visão mais popularizada no Brasil e em outros lugares (muitas vezes ligada ao Dispensacionalismo e ao Pré-Milenismo Dispensacional) defende um Arrebatamento pré-tribulacional e secreto.

 * Evento Detalhado: Aconteceria em duas fases distintas da Segunda Vinda de Cristo. Na primeira fase, Jesus viria secretamente nas nuvens para levar a Igreja (os crentes vivos e os mortos ressuscitados) antes de um período de sete anos conhecido como a Grande Tribulação.

 * Argumentos e Referências:

   * Imunidade à Ira: A Igreja seria liberta da ira vindoura (1 Tessalonicenses 1:10; 5:9) e, portanto, não passaria pela Grande Tribulação, que é vista como a ira de Deus.

   * A “Bendita Esperança”: O retorno de Cristo é uma esperança iminente (Tito 2:13), o que sugere que nenhum evento profético precisaria acontecer antes.

   * 1 Tessalonicenses 4:16-17: A passagem mais clara sobre o arrebatamento. “Porque o Senhor mesmo, dada a sua palavra de ordem, ouvida a voz do arcanjo e ressoada a trombeta de Deus, descerá dos céus, e os mortos em Cristo ressuscitarão primeiro; depois, nós, os vivos, os que ficarmos, seremos arrebatados juntamente com eles, entre nuvens, para o encontro do Senhor nos ares, e, assim, estaremos para sempre com o Senhor.”

A Visão da Teologia Reformada sobre a Segunda Vinda

A Teologia Reformada (Calvinista), ligada historicamente ao Amilenismo ou Pré-Milenismo Histórico, geralmente não sustenta um arrebatamento secreto ou pré-tribulacional. Em vez disso, ela vê o “arrebatamento” (o encontro com Cristo nos ares) como parte do único e glorioso evento da Segunda Vinda de Cristo.

Principais Argumentos e Doutrinas Reformadas:

1. Unidade da Segunda Vinda (Pós-Tribulacionismo)

A maioria dos teólogos reformados clássicos (seguindo a visão histórica da Igreja) adota o Pós-Tribulacionismo. Eles veem apenas uma volta de Cristo, que acontece após a Grande Tribulação.

 * Argumento: O Novo Testamento usa os mesmos termos e sinais para descrever o “encontro nos ares” e a “vinda final” de Cristo, sugerindo que são o mesmo evento público e final.

 * Referências Bíblicas:

   * Mateus 24:29-31: Jesus diz que logo após a tribulação, “o Filho do Homem virá sobre as nuvens do céu, com poder e grande glória. E ele enviará os seus anjos, com forte clangor de trombeta, os quais reunirão os seus escolhidos…” Este reunião (ajuntamento) é visto como o mesmo evento descrito em 1 Tessalonicenses 4:17.

   * 1 Coríntios 15:51-52: A transformação dos crentes e a ressurreição ocorrerão ao soar da última trombeta, o que é associado ao fim dos eventos do fim dos tempos.

   * Natureza Pública: O evento é descrito como ruidoso (“palavra de ordem,” “voz do arcanjo,” “trombeta de Deus” em 1 Ts 4:16) e visível (“virá sobre as nuvens” em Mt 24:30), o que contradiz a ideia de um evento secreto.

2. A Igreja Passará pela Tribulação

A perspectiva reformada geralmente entende que a Igreja não será removida do mundo, mas sim protegida por Deus no mundo durante o período final da aflição.

 * Argumento: A Grande Tribulação (as aflições e perseguições) é o destino da Igreja nesta era, à semelhança do próprio Cristo e dos apóstolos (João 16:33; Atos 14:22). A promessa não é de remoção, mas de preservação e perseverança através dela.

 * Referência Bíblica:

   * Apocalipse 7:14: Os santos que servem a Deus no céu “vieram da grande tribulação”, indicando que a Igreja (ou pelo menos uma parte significativa dos santos) estará passando por ela.

3. Ênfase na Teologia do Pacto (ou Aliança)

A Teologia Reformada vê a Igreja como a continuação ou o cumprimento do Israel espiritual. Não há uma distinção rígida entre os planos de Deus para a Igreja e para Israel que exija a remoção da Igreja para que Deus trate exclusivamente com Israel (como defende o Dispensacionalismo).

 * Argumento: O plano de Deus é um só, centrado em Cristo. A Igreja não precisa ser “arrebatada” para que a profecia de Daniel sobre a 70ª semana se cumpra para Israel. A volta de Cristo é o ponto culminante para todos os redimidos.

Detalhes do Evento (Pós-Tribulacional)

Na visão majoritária da Teologia Reformada (Pós-Tribulacional), os eventos do fim seriam:

 * A Grande Tribulação: Um período de intensa perseguição e aflição mundial, marcando a manifestação final do Anticristo.

 * O Retorno Glorioso de Cristo e o Arrebatamento:

   * Tempo: Imediatamente após a Grande Tribulação (Mateus 24:29).

   * Natureza: Público, audível e visível. Cristo desce do céu (1 Tessalonicenses 4:16).

   * Ressurreição: Os mortos em Cristo ressuscitarão primeiro com corpos glorificados (1 Coríntios 15:52).

   * Transformação e Encontro: Os crentes vivos serão transformados num piscar de olhos e, junto com os ressuscitados, serão arrebatados (tirados) para o encontro do Senhor nos ares (1 Ts 4:17). Este encontro é para imediatamente voltar com Ele à Terra (Zacarias 14:4) para julgar as nações e iniciar a próxima fase da história.

 * O Juízo: Cristo julgará as nações (Mateus 25:31-46).

 * O Reino Final (Dependendo do Milenarismo):

   * Amilenistas (Visão Comum Reformada): O retorno de Cristo leva diretamente ao estado eterno, com a ressurreição final e o juízo sendo o ápice. O Milênio é visto como a presente Era da Igreja.

   * Pré-Milenistas Históricos (Alguns Reformados): O retorno de Cristo inicia o reinado literal de mil anos de Cristo na Terra, seguido pelo Juízo Final e o estado eterno.

Em resumo, a diferença fundamental é de tempo e propósito:

| Característica | Perspectiva Dispensacionalista (Pré-Tribulacional) | Perspectiva Reformada Clássica (Pós-Tribulacional) |

|—|—|—|

| Quando? | Antes da Grande Tribulação (iminente). | Após a Grande Tribulação, no retorno final. |

| Natureza | Secreto (para a Igreja) e sem sinais. | Público, ruidoso, visível e com sinais precedentes. |

| Propósito | Retirar a Igreja para que Deus trate com Israel na Tribulação. | Reunir a Igreja ressuscitada/glorificada para inaugurar o Reino Eterno na Terra. |

Esta divergência mostra como diferentes interpretações escatológicas (estudo das últimas coisas) afetam a compreensão de um evento bíblico central como o Arrebatamento.

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