Quando se fala sobre dízimo, é comum que a primeira associação seja com o Antigo Testamento, mais especificamente com a Lei de Moisés. No entanto, uma leitura atenta e aprofundada das Escrituras nos revela algo extraordinário: o dízimo surgiu séculos antes de o código mosaico ser escrito.

Longe de ter nascido como uma obrigação legal ou um imposto religioso, o dízimo teve sua origem na fé voluntária e no reconhecimento da soberania divina por parte dos patriarcas.

O Encontro Histórico: Abraão e Melquisedeque

O primeiro registro do dízimo na Bíblia ocorre em Gênesis 14. Após vencer uma batalha complexa para resgatar seu sobrinho Ló, Abraão regressa e é recebido por Melquisedeque, “rei de Salém e sacerdote do Deus Altíssimo”.

Melquisedeque sai ao encontro de Abraão trazendo pão e vinho, abençoando o patriarca. Em resposta imediata e espontânea, sem que houvesse qualquer mandamento registrado até então, a Bíblia afirma que Abraão “deu-lhe o dízimo de tudo” (Gênesis 14:20).

Essa atitude de Abraão revela dois pontos fundamentais:

  • Fé sem imposição: Não havia lei, sacerdócio levítico ou ameaça de punição. O gesto nasceu do desejo sincero de honrar a Deus.
  • Reconhecimento de soberania: Ao entregar a décima parte dos despojos, Abraão declarou publicamente que sua vitória e suas riquezas não eram fruto da sua própria força, mas da provisão do Criador.

Melquisedeque: A Figura do Nosso Sumo Sacerdote

A história de Melquisedeque não para em Gênesis. No Novo Testamento, o livro de Hebreus revela a dimensão profética e espiritual desse encontro.

O autor de Hebreus dedica os capítulos 6 e 7 para explicar que Jesus não é sumo sacerdote segundo a ordem de Arão (o sacerdócio da Lei de Moisés), mas sim segundo a ordem de Melquisedeque.

Melquisedeque surge na narrativa bíblica sem registro de genealogia, sem início ou fim de dias, funcionando como uma tipologia — uma figura profética — do próprio Cristo. Quando Abraão entregou o dízimo a Melquisedeque, ele estava, de forma figurativa, honrando antecipadamente o Sacerdócio Eterno de Jesus.

Hebreus vai além e argumenta que, como a tribo de Levi ainda estava nos “lombos de Abraão”, até mesmo os sacerdotes da Lei, indireatamente, prestaram homenagens a Melquisedeque. Isso demonstra que a ordem sacerdotal de Cristo é superior e anterior à Lei Mosaica.

A Prática Continuada Entre os Patriarcas

A compreensão da entrega dos bens a Deus seguiu viva no coração das gerações seguintes.

  • Isaque viveu sob a bênção da aliança, semeando em tempos difíceis e experimentando a multiplicação divina (Gênesis 26).
  • Jacó, neto de Abraão, ao ter a marcante visão da escada que tocava os céus em Betel, fez um voto pessoal com Deus. Em Gênesis 28:22, ele declara: “E de tudo o que me deres, certamente te darei o dízimo”.

A atitude de Jacó reforça que a prática era uma tradição de aliança familiar, transmitida como expressão de confiança de que Deus é o verdadeiro mantenedor da vida.

O Que Isso Significa para a Igreja Hoje?

Entender que o dízimo é anterior à Lei de Moisés muda completamente nossa perspectiva sobre a contribuição na Nova Aliança.

A Lei Mosaica codificou e regulamentou o dízimo para a organização da nação de Israel e sustentação do tabernáculo. Contudo, porque o dízimo antecede a Lei e se conecta diretamente à ordem eterna de Melquisedeque, ele transcende as ordenanças cerimoniais daquele tempo.

Para o cristão hoje, dizimar e ofertar não deve ser um ato praticado por medo de maldição, jugo legalista ou mero costume religioso. Pelo contrário: é uma extensão da mesma fé de Abraão.

Ao contribuirmos, exercemos um ato voluntário de amor, gratidão e adoração direcionado ao nosso Sumo Sacerdote, Jesus Cristo, reconhecendo que tudo o que temos vem de Suas mãos e pertence ao Seu reino.

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